Comer, meditar, amar (ou como passei 10 dias sem desodorante)

 

 

Lá pelos meus 11 ou 12 anos decidi que era hora de seguir uma religião - afinal, eu já era uma mulher madura. Comecei a pesquisar em bibliotecas (oh, sim, realmente isso faz tempo), perguntar aqui e ali, ler alguns livros. Na época os do Jostein Gaarder faziam muito sucesso e os devorei, tanto O Mundo de Sofia quanto, é claro, O Livro das Religiões. Desde aquele tempo pensava que uma religião deveria se adequar aos meus valores, e não o contrário, e enquanto lia e me informava achava tudo interessantíssimo, lindas histórias e metáforas, bonitos valores. E algumas nem tanto. Outras péssimas. Outras ew.

 

Acabei chegando a duas finalistas do meu coração: wicca e budismo (haha lembre-se, eu era uma mulher madura de 11 ou 12 anos). Minha parte da favorita da wicca era a ligação estreita com a natureza, com os elementos, o ar de sororidade (obviamente eu não tinha muita ideia do que isso significava, mas era algo que despertava minha simpatia). Porém, detestava os ritos. A obrigação de fazer determinadas coisas em determinado tempo era algo que me desagradava absurdamente. Não conseguia aceitar essa falta de independência, os intermediários, então risquei da lista.

 

Sobrava o budismo. Não era necessariamente ligado a ritos, o que era ótimo. Os preceitos também eram incríveis e quanto mais eu lia, mais me agradava... até esbarrar no conceito de dissolução do ego e desapego. Aquilo foi demais pra uma mulher madura de 11 ou 12 anos. Como assim que eu, euzinha, não sou o centro do universo? Como assim que o apego é ruim? Meuzovo que é ruim. Por que diabos eu deveria buscar isso? Tsc. Me despedi do budismo, mas guardei a minha simpatia por ele em uma gaveta.

 

A partir daí resolvi seguir sozinha e me pautar nos meus próprios valores, provindos de tudo quanto era lugar e das minhas próprias experiências - quem já ouviu um pouco da minha história entende o quão rocambolesca e solitária a minha trajetória soube ser. Fui esporadicamente a algumas igrejas a convite da família e amigos, mas não me prendi a nenhuma. Alguns ficaram preocupados comigo, achavam que faltava algo na minha vida ou que sem religião eu não seria capaz de desenvolver minha espiritualidade. Eu só ouvia e continuava na minha convicção.

 

Vinte anos depois, no final de 2015, estava passando por uma crise bastante difícil de depressão (e a gente precisa falar de depressão abertamente e sem constrangimento, que não se "pega" doença mental porque não lavou as mãos depois de usar o banheiro ou porque é uma pessoa fraca). Àquela altura meus dias se resumiam em trabalhar feito uma jumenta e assistir à Netflix, pra não ter que pensar em nada e continuar vivendo no automático. Comecei a ver uma série de documentários, um atrás do outro, até que topei com um chamado The Dhamma Brothers. Em poucas palavras, era a história da introdução da meditação Vipassana em um presídio de segurança máxima do Alabama. Quando vi, fiquei completamente obcecada. Eu precisava fazer aquilo (preferencialmente sem ter que matar ninguém).

 

Descobri então que a Vipassana era ensinada no Brasil e que, pra minha sorte, havia cursos semestrais e gratuitos aqui em Curitiba. Por sinal, o próximo aconteceria dali a algumas semanas, mas já não tinha vagas. Esperei pacientemente até abril, quando abririam as inscrições novamente. E cheguei tarde: era a 18ª da lista de espera. Ou seja, já era. Até que chegou um email no início de julho anunciando uma última vaga: era a 3ª da fila. Já era. E aí confirmaram minha inscrição dois dias depois. Fiquei estupefata. E foi nessa hora que esta história realmente começou.

 

***

 

Dia 0: shhh. Silencio. No hay banda.

 

O curso foi feito em uma casa de retiros no Mossunguê. Chegando lá comprovei minha identidade (jurei que não era nem seria a tal da Janaina), ganhei um copo de alumínio que me acompanharia até o final, preenchi uma ficha me comprometendo a seguir o código de disciplina e outros requerimentos e deixei a chave do carro e celular em poder da gerência. Não tinha nada comigo além da roupa que levei e produtos de higiene pessoal; não tinha nem uma caneta sequer. Fiquei em uma suíte com outras duas alunas novas e combinamos rapidamente itens para a sobrevivência conjunta – felizmente pareceu que a convivência seria tranquila, apesar da advertência de uma delas sobre a possibilidade de gritos durante a noite. Os homens estariam segregados das mulheres durante todo o curso e havia gente de todos os tipos. Meninas de cabelo raspado, meninos de cabelo comprido, abraçadores (literais) de árvore, todas as idades, todo o tipo de experiências prévias.

 

O dia lindo se transformou em uma noite de tempestade com granizo. Pra algumas das meninas isso foi um bom presságio da natureza; pra mim, foi a constatação de que tinha esquecido o guarda-chuva no carro. Jantamos, ouvimos instruções e a primeira palestra na sala de meditação e então o Nobre Silêncio começou: não deveríamos nos comunicar com ninguém, de qualquer maneira imaginável, até o final do curso. As únicas exceções eram a gerente do curso (quem cuidava da organização material) e dos professores.

 

Dias 1 a 3: cuide do seu nariz

 

A nossa rotina dos próximos 10 dias consistiria no seguinte: acordar às 4 da manhã, meditar por 10 horas ao longo do dia, tomar café e almoçar (não tínhamos janta propriamente, apenas duas frutas e chá), ter duas pausas pra tomar banho, cochilar, caminhar, etc., assistir a uma palestra diária e dormir por volta das 21:30. Ou seja, enquanto você estivesse acordada deveria estar meditando ou comendo durante 95% do tempo.

 

Nos três primeiros dias aprendemos uma técnica chamada Anapana, que é basicamente prestar atenção na sua respiração. Só isso. Sem tentar modificá-la, apenas observar o fluxo do ar e as sensações em uma área cada vez mais reduzida entre o nariz e a boca. Por 10 horas diárias. Nos dois primeiros dias minha mente estava tão agitada e tão descompensada de sono que cheguei a ter o que chamaria de alucinações: uma série de imagens desencontradas e assustadoras ficava passando pela minha cabeça (como aquelas d'O Chamado) enquanto percebia que o ar sempre saía na mesma medida pelas minhas duas narinas. Reparar na sua respiração era muito mais difícil do que parecia.

 

Até o terceiro dia fiquei me perguntando o que diabos estava fazendo ali. Será que alguma coisa boa realmente sairia disso tudo mesmo ou era só masoquismo? Aparentemente várias pessoas pensaram o mesmo e desistiram, em torno de cinco. Eu não pensei em ir embora, mas pela primeira vez concluí que pernas poderiam ser um troço bastante dispensável na minha vida. E que, inclusive, seria muito prazeroso arrancá-las e jogá-las na cabeça de alguém.

Ah, é: no segundo dia eu descobri que esqueci de colocar o meu desodorante na mala. E também comecei a catar pinhões no pátio pra alongar as costas e me ocupar com algo.

 

O futuro nesse curso parecia bem pouco emocionante.

 

Dia 4: horas de Vipassana

 

No quarto dia finalmente estaríamos prontos para aprender Vipassana. Nessa técnica temos que aprender a observar as sensações em todos os pontos do nosso corpo, uma vez que considera uma estreita relação entre matéria e mente. As nossas reações de apego e aversão a situações se instalariam como impurezas no nosso corpo, enquanto algumas delas ficariam profundamente arraigadas em nós, condicionando nossos comportamentos e gerando sofrimento (resumão pro vestibular 2017). Assim, por meio da observação sem julgamento das nossas sensações poderíamos acessar essas impurezas e, aos poucos, eliminá-las. O ponto era permanecer equânime, isenta, o tempo todo, independentemente da sensação que encontrasse (ou não encontrasse). Três vezes por dia teríamos que fazer a hora do "firme propósito", na qual não poderíamos nos mover de maneira nenhuma durante a meditação.

 

Logo na primeira hora de firme propósito a minha dor nas costas se intensificou um milhão de vezes: eram as minhas impurezas dando um alô efusivo. Foi difícil permanecer imóvel e tentar apenas observar aquela dor toda, mas sobrevivi. Porém, na segunda hora a dor se tornou insuportável. Eu quase não conseguia respirar e tinha visões dos meus feixes musculares sendo alvo de choques elétricos fortíssimos. Quando acabou, pedi à gerente que pudesse me apoiar na parede durante as outras sessões de meditação porque estava quase chorando de dor. Ela disse que perguntaria depois à professora. Então saí da sala e... chorei. Chorei de dor, chorei de frustração, de um trilhão de merdas acumuladas, chorei, chorei por estar chorando, chorei, quase perdi a hora da janta, chorei um pouco mais. Não conseguia me controlar. Tudo me fazia querer chorar e eu não resisti muito à urgência. Era bom chorar. E continuei chorando durante algumas outras horas de mais ou menos firme propósito, sem conseguir meditar, só sentindo toda a dor.

 

Dia 5: vila do Buda

 

No dia anterior havia chegado uma onda de frio polar a Curitiba. Fiz uma obra MacGyver na janela do banheiro com um saco de lixo e fita crepe para que não entrasse ar gelado enquanto tomávamos banho e funcionou. Porém, não podíamos usar secador de cabelo ou qualquer coisa que fizesse barulho. Isso, somado ao Festival de Catarro & Germes que acontecia ininterruptamente na sala de meditação, me fazia pensar que deveria haver um alerta de insalubridade antes de o curso ter começado. O barulho ensurdecedor das pessoas em silêncio no refeitório batendo copos e talheres também era uma séria ameaça à qualidade de vida.

 

Apesar de todas as dores e desconfortos era bastante divertido circular pela área restrita às mulheres. Com o frio a sala de meditação foi transformada em um cortiço zen com milhares de cobertas, meias, almofadas, banquinhos, lenços de papel, mantas e pessoas espalhadas em retângulos de feltro que delimitavam o espaço pessoal de cada uma. Uma nova onda fashion invadiu os recintos e tornou socialmente aceitável o uso de meias por cima de calças de moletom, cobertores substituindo casacos, ausência de sutiãs, moda chinelo com meia, repetição infinita de roupas e variadas formas de vestir lenços – odalisca, cobrindo o nariz e a boca; burkha, deixando apenas os olhos à mostra; Madame Zoraide, como turbante; dementadora, com capuzes enormes que não permitiam ver o rosto das pessoas, e por aí afora. À tarde, quando o sol batia na maior parte do estacionamento, fazíamos cover de Cidade dos Anjos e ficávamos lá, em silêncio, espalhadas de frente pra luz e buscando um pouco de energia nova. Era uma cena bonita (e meio bizarra).

 

Também era interessante gastar um pouco de tempo imaginando personagens. Aquela menina esguia parecia filha de aristocratas da década de 1950 e com certeza deveria usar laços grandes no cabelo e ser turrona, porém de bom coração. Aquela outra, a versão em castanho da Frances Conroy, poderia ter estrelado filmes do começo da década de 1990 como Lendas da Paixão ou algum da Andie Macdowell, onde ela seria a protagonista indomável e apaixonada da trama. Também tinha a Ratinha, que não se assemelhava fisicamente em nada a uma ratinha, mas era tão simpática, excêntrica e mal compreendida quanto. Foi um pouco decepcionante ter conversado com todas as minhas personagens ao final do curso, inclusive: nenhuma correspondia à vida ou personalidade que eu lhes tinha atribuído.

 

A minha catação de pinhão pelo pátio ia de vento em popa, e ao longo dos dias notei que algumas das meninas começaram a formar montinhos de pinhão em diferentes pontos. Sorria, catava tudo e juntava ao monte na mesa comum. Era estranho e confortante pensar que, além de repararem em você, também contribuíam em silêncio com a atividade. O ápice foi quando passei ao lado de um postinho e vi, em cima dele, um monte de pinhões enormes, lindos, junto a um coraçãozinho cor-de-rosa recortado. Não faço ideia de quem colocou aquilo ali, mas recolhi os pinhões e guardei o coração no bolso da calça. Em todas as vezes que colocava inadvertidamente a mão no bolso e me lembrava dele, o símbolo da generosidade gratuita de uma anônima para outra anônima, sorria e tinha mais impulso para continuar na prática.

No quinto dia conversei com a professora pela primeira vez. "Oi, professora. Ontem eu dei uma surtadinha :)". Não tinha exatamente uma dúvida a sanar e já estava bem melhor, só queria conversar um pouco a respeito. Sabia que era parte do processo e que a impermanência era a regra; as minhas dores diminuíram significativamente. Estava voltando aos eixos e vendo o sentido daquilo tudo.

 

Dias 6 a 9: montanha-indo-russa

 

No sexto dia a situação se inverteu completamente e eu passei a ter sensações fantásticas. Em uma ocasião senti meu corpo inteiro formigando num arco-íris de energia, em outra senti um forte calor se espalhando por tudo, conseguia fazer até malabares com os fluxos de energia. Pô, consegui, então. Era isso aí. Foi até rápido. Até que, óbvio, a dor voltou e eu não consegui tocar o estoicismo nem com a ponta do dedo. O que eu estava fazendo de errado?

 

Quanto mais tentava voltar às boas sensações ou à ausência de dor, mais doía. Quando finalmente me dei conta disso, entendi. Então comecei a conversar mentalmente com a minha dor. Literalmente. Era por causa daquilo que aconteceu em dezembro de 1998? Nada. Era por aquela minha tendência a reagir assim em situações assadas? Melhorava um pouquinho. Mas tem a ver com aquela série de acontecimentos de mart... Pontada. Não. Começa de novo. Fiquei assim durante todas as minhas folgas do oitavo dia e cheguei a uma conclusão geral, embora começasse a suspeitar que na realidade estava mesmo era perdendo a sanidade mental. Aquilo mexeu com questões antigas, enormes, que fazia muito tempo que não eram perturbadas ou sequer lembradas. Não foi agradável ficar remexendo nelas e fiquei terrivelmente ensimesmada. Quando saí do refeitório após o jantar vi um entardecer maravilhoso, vanilla sky. Isso apaziguou um pouco o espírito, até que cheguei na porta do meu quarto e ouvi vozes.

 

Era assustador ouvir vozes, imaginei que algo muito grave tivesse acontecido com as minhas colegas de quarto. Entrei e elas se calaram imediatamente, umas olhando pras outras sem compreender nada por alguns segundos. "É que ela tava me falando que tá com muitos gases. Você também tá?". "Todas estamos", ri. "Quebrei o Nobre Silêncio pra falar de pum!". Eu sinceramente não poderia pensar num assunto mais digno que esse pra quebrar o Nobre Silêncio, mas essas foram as únicas palavras que acabei dizendo até o fim da estadia. Elas continuaram conversando entre si, mas respeitaram a minha opção de permanecer na minha bolha. De todo modo, ouvir falar sobre peidos reprimidos estranhamente era o que estava precisando naquele fim de tarde.

 

Pra minha surpresa, as conclusões a que cheguei sobre as minhas dores foram exatamente o que ouvi na palestra daquela noite. Quase com as mesmas palavras, inclusive. E aí, se eu ainda tinha algum ceticismo, me entreguei de vez. Passei os dias seguintes tentando achar o equilíbrio e, por conseguinte, a diminuição das minhas dores. Perdi a noção do tempo várias vezes, achei que fosse ficar doente (e fiquei, no último dia), reavaliei os meus próprios pensamentos recorrentes - aqueles que a gente tem quando a mente divaga durante uma viagem chuvosa de ônibus ou está há muito tempo numa sala de espera. No quê você costuma pensar? Particularmente, não gostei do padrão que encontrei em mim. E, talvez a parte mais importante, percebi que se eu suporto bem a dor, são os meus desejos que tiram o que há de melhor e pior em mim. E sempre foi assim.

 

Encerramento: o gato devolveu a língua

 

No penúltimo dia pudemos voltar a falar pela manhã. Ainda não podíamos ter qualquer contato físico nem fazer barulho próximo à sala de meditação, mas isso não era bem um problema. Não tive nenhuma vontade de falar nos dias anteriores, mas quando finalmente pude não parei mais. Trocamos experiências, conheci várias das meninas e das suas vidas, me dei conta do abismo que existia entre o que aprendemos ali e como nos comportamos e posicionamos na vida. Todas nós temos um longo caminho para trilhar e torço para que eles se reencontrem em alguma altura.

 

A última coisa que aprendemos foi Metta, que significa "amor compassivo". É a finalização da meditação Vipassana, na qual você vai além da auto-observação e cultiva o amor e compaixão por todos os seres e compartilha os méritos e virtudes que tem. Uma prece. O grande problema é que ela foi ensinada em baleiês death metal e eu não estava preparada pra isso (sério, por favor, ouça se não conhecer). A mensagem era linda, mas quando mais eu ouvia, mais me descontrolava. Me chacoalhava inteira tentando não emitir som, só aquela risada de vento que passa pelo nariz. Cobri a cabeça com o cobertor de medo que a professora me visse e as lágrimas começaram a escorrer de tantas gargalhadas imaginárias que eu dava. Foi um ótimo fechamento.

 

Feitos os contatos, arrumada a mala, tomado o último café da manhã, abraços dados, era hora de ir embora. Estava com um pouco de medo do choque de realidade. E aí, assim que liguei o rádio do carro, começou a tocar a É Preciso Saber Viver. Não é?

 

E fazia uma bela manhã no Mossunguê.

 

 

O PÓS-CURSO

 

Dizer que o impacto do Vipassana na minha vida foi enorme é dizer pouco: ele ajudou a virar a minha vida de cabeça pra baixo (pro bem!). Um mestre tibetano já disse que "se você pratica o caminho [de Buda/meditação], mas sua vida ainda não virou de cabeça pra baixo, sua prática não está funcionando". Isso me deixa feliz (e um pouco assustada).

 

Uma vez que começamos a meditar não há como saber ao certo em que estado estaríamos sem ela, mas acho que tenho uma boa ideia: estaria mais ansiosa do que nunca com o fim do meu doutorado, irritável, deprimida, apática. Em lugar disso, criei o maria zen. Conheci um monte de gente. Melhorei o meu relacionamento com as pessoas. Estou mais amorosa, otimista e paciente. E, principalmente: estou aprendendo a ser gentil comigo mesma. Entendendo que eu sou a minha melhor amiga e devo ser tratada como tal.

 

Ainda tenho um longo caminho pela frente. E não é fácil. Mas se tem uma coisa pela qual vale a pena lutar, é lutar pra ter uma vida mais feliz (e por consequência melhorar a de quem te cerca). Não concorda?